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ENTREVISTA: WIMER BOTURA JÚNIOR

Entrevista WimerMédico psiquiatra, psicoterapeuta e professor da Faculdade de Medicina da USP, Wimer Bottura Júnior é autor de livros que tratam de temas como a educação dos filhos, a psicologia e as relações humanas em geral. Mais recentemente, dedicou-se à questão dos males provocados pelo fumo no livro “Viva o fumante: abaixo o cigarro”.
Atual presidente do comitê multidisciplinar de adolescência da Associação Paulista de Medicina, o psiquiatra trabalha há 32 anos com crianças e adolescentes, dá palestras em empresas e já foi palestrante convidado em universidades da Europa. Nesta entrevista, o psiquiatra fala sobre a relação entre pais e filhos adolescentes, os erros cometidos na educação, entre outras questões pertinentes à época da infância e adolescência.

Qual é o maior erro que os pais cometem na educação de seus filhos?
São dois grandes erros que os pais cometem: o primeiro erro é não escutar – existem pais que não escutam e dizem não para tudo. E aqueles que não escutam e dizem sim para tudo. As duas formas são muito graves. É importante que os pais escutem. E escutar não quer dizer concordar. Escutar é pensar sobre o que a criança emitiu falando ou pelo seu comportamento. Há pais que acham que escutam porque esperam o filho acabar de falar. Escutar não é esperar o outro acabar de falar, escutar é pensar sobre o que o outro está manifestando.                      
O segundo erro é a rigidez, de se achar dono da razão, do tipo “Eu sei o que é melhor para o meu filho”. Infelizmente os pais acham que sabem o que é melhor para os filhos, mas não sabem. Os pais acreditam que estão certos, que sempre têm razão, que seus motivos são mais pertinentes que os dos filhos. Mas, quando existe a escuta, aumenta a chance de haver flexibilidade nos debates.

Você fala muito em seus livros sobre como o comportamento dos pais reflete na personalidade dos filhos. Levando em conta a escola, qual seria o papel dos professores e da escola na formação da personalidade? 
A escola entra na função paterna principalmente. Quer dizer, introduz na cabeça da criança o conceito de responsabilidade, o conceito de direito, a relação com o mundo, as regras. O que acontece? Infelizmente a função paterna é muito mal cumprida e sobra para a escola suprir ou compensar aspectos não desempenhados pela função paterna em casa. A escola atua nesse nível. Mas, além da formação, a escola tem uma responsabilidade em dar parâmetros para que a criança construa seu mapa da realidade da maneira mais fiel possível. 

A adolescência é lembrada por ser uma fase de decisões importantes, da escolha de uma carreira, da pressão do vestibular etc. Como os pais deveriam agir nesse momento?
É preciso sensibilizar os pais para a conscientização de que eles não devem escolher a carreira dos filhos. Geralmente, quando os pais decidem a carreira deles, optam por aquilo que acham melhor em um dado momento. Mas, até o filho concluir o curso universitário e começar a trabalhar, a realidade pode ter mudado. Eles pensam na rentabilidade imediata: “Ah, é melhor! Essa área tem emprego, aquela não tem”. Existem profissões que são mais rentáveis, mas essa diferença varia muito a cada instante. A escola deve fornecer diferentes formas de conhecimento, diferentes experiências, para que o jovem possa fazer a escolha com mais objetividade. É o conhecimento das diferenças que dá maior segurança para a escolha.

As expectativas dos pais podem ser nocivas?
Claro, são potencialmente nocivas. Existem pais que esperam que os filhos supram aquilo que não conseguiram na vida. O pai queria ter estudado na melhor universidade e pressiona o filho para que faça aquilo. Mas o filho não tem que suprir o que o pai ou mãe não conseguiram na vida. As expectativas obrigam a criança a ter um excesso de responsabilidade na escolha profissional – e a criança fica tensa, sua frio quando vai fazer a prova. Existe essa competição em família em que a criança, mais do que estudar e ter êxito, tem que provar algo a alguém – isso sobrecarrega, cria uma série de perfeccionismos que geram estresse.

Você trabalha há bastante tempo com jovens. Os problemas, as angústias da adolescência ainda são os mesmos?
Houve muita mudança. O adolescente de hoje é muito mais maduro que o das gerações anteriores. Embora as pessoas falem o contrário, que “o adolescente de hoje é irresponsável”, a grande verdade é que a adolescência de hoje é muito melhor que a adolescência do passado. Incriminar o jovem, dizer que o jovem é isso ou aquilo é muito fácil. O mau exercício da autoridade é grave. Quando a função paterna é mal cumprida, o jovem se desmotiva, desacredita. É preciso resgatar o aspecto simbólico. A escola, por exemplo, precisa resgatar o simbolismo do professor. Quando o jovem acredita na autoridade, ele se sente estimulado a resistir às dificuldades.

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